Análise Pedológica

Na elaboração da aptidão agrícola das terras, as características das unidades de mapeamento empregadas foram: fertilidade natural do solo e em particular presença de alumínio trocável, textura do solo, relevo, profundidade efetiva, suscetibilidade à erosão, drenagem, pedregosidade e rochosidade, e saturação com sódio e/ou salinidade, escolhidas por serem aquelas que mais limitam a produtividade da cultura.

Foram utilizadas as informações contidas no levantamento de solos do estado de São Paulo, cujo mapeamento de solos, em escala 1:500.000 (Oliveira, 1999), resultou da compilação e adequação de escalas e de legendas de uma série de oito mapas, provenientes do Projeto RADAMBRASIL, de 15 mapas do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e do mapa de solos elaborado pela Comissão de Solos em 1960.

A legenda do Mapa de Aptidão Agrícola para a cultura da uva no estado de São Paulo apresentou as seguintes classes: boa1 = todos os componentes da unidade de mapeamento apresentam aptidão boa; boa2 = pelo menos o primeiro componente da unidade de mapeamento apresenta aptidão boa com presença de unidades inaptas; regular1 = todos os componentes da unidade de mapeamento apresentam aptidão regular; regular2 = pelo menos o primeiro componente da unidade de mapeamento apresenta aptidão regular com presença de unidades inaptas; regular3 = pelo menos o primeiro componente da unidade de mapeamento apresenta aptidão regular com presença de unidades restritas; restrita1 = todos os componentes da unidade de mapeamento apresentam aptidão restrita; restrita2 = pelo menos o primeiro componente da unidade de mapeamento apresenta aptidão restrita com presença de unidades inaptas; inapta1 = todos os componentes da unidade de mapeamento são inaptos; e inapta 2 = pelo menos o primeiro componente da unidade de mapeamento é inapto com presença de solos aptos.

Na elaboração do quadro-guia para a viticultura (Tabela 1) constatou-se que, por ser a uva uma planta que se adapta a solos com baixa retenção de água e baixa fertilidade, a gama de solos aptos ao seu cultivo é muito ampla. A profundidade do solo e o excesso de água revelaram-se os fatores mais restritivos à cultura. O excesso de água é prejudicial, principalmente pelo aumento na ocorrência de doenças e, conseqüentemente, pela elevação dos custos de produção e perda de qualidade ambiental do produto.

A profundidade dos solos e sua estruturação são importantes no desenvolvimento da videira. Solos rasos, com profundidade menor que 0,8 metros não são indicados, assim como solos com elevada pedregosidade e rochosidade, estes podem interferir de forma negativa no desenvolvimento das raízes, dificultando a captação de água e nutrientes.

Embora os solos férteis auxiliem na melhor qualidade do fruto, a cultura da videira não é considerada altamente exigente em nutrientes, sendo aptos para seu cultivo solos eutróficos e distróficos. Fatores que podem influenciar na disponibilidade de nutrientes, são o pH e a toxidez por alumínio, a cultura da videira não tolera solos álicos (saturação por alumínio trocável superior a 50%) e também solos ácidos, exigindo pH variando entre 6,5 a 7,0. A matéria orgânica é considerada fundamental para o sucesso da cultura, necessitando de no mínimo 2,6%.

No Brasil, os vinhedos não utilizam grandes práticas de cultivos mecanizados, já que as freqüentes podas e a colheita são feitas de forma manual. A maquinaria é utilizada apenas antes da implantação do vinhedo, dessa forma os critérios para avaliação de impedimentos à mecanização assumiram limites flexíveis, diferentemente do que ocorre na avaliação de aptidão agrícola de outros sistemas de produção tecnificados.

Quanto à suscetibilidade à erosão, o relevo tem função importante na definição de áreas aptas e inaptas. No estado de São Paulo é comum encontrar vinhedos em áreas montanhosas e escarpadas (mais de 45% de declividade), porém, o ideal para seu cultivo são áreas planas a onduladas (menos de 20% de declividade), pois, sendo a videira uma cultura que expõe as entre-linhas de plantio, o risco de erosão é minimizado.

No estado de São Paulo predominam duas categorias de solos, os Latossolos e os Argissolos (antigos Podzólicos), que correspondem respectivamente a 39,6% e 41,6%, respectivamente, do território paulista (Tabela 2). Esses solos encontram-se predominantemente em relevo plano a ondulado, são em geral profundos a muito profundos e, apesar de apresentarem textura e fertilidade variáveis, quando bem manejados são aptos ao cultivo da videira.

A reclassificação dos solos em classes de aptidão para a cultura da uva indicou que mais de 61% das terras do estado de São Paulo apresenta aptidão boa. As áreas inaptas, que ocupam pouco mais de 12,5% da área de abrangência do estado, se situam principalmente em áreas de declives muito acentuados, com solos com profundidade efetiva inferior a 1m ou em áreas com problemas de drenagem. Nessas áreas podem ser encontradas pequenas manchas de solos aptos.

Cabe destacar que muitas das áreas consideradas regulares e restritas para o cultivo da videira encontram-se na porção sul-sudeste do estado, onde se situam áreas tradicionais da viticultura paulista, como São Roque, Campinas, Valinhos, Indaiatuba, Vinhedo e Jundiaí. Nessas áreas, embora produtivas, predominam solos de aptidão regular ou restrita, que aumentam o risco do empreendimento agrícola e os riscos ao ambiente, seja pelo uso de terras situadas em áreas muito declivosas, seja pela utilização de solos de profundidade inferior a 0,80 m. Isto salienta a importância de zoneamentos pedoclimáticos que contribuam para a implantação de políticas públicas de estímulo à produção e de aumento da eficiência da atividade agrícola.

A integração das informações com dados climáticos é fundamental para que o zoneamento da cultura da uva defina as áreas mais propícias para produção de uva e vinho de qualidade.


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